Igreja e política: o púlpito não é palanque

Bíblia aberta diante de vitrais coloridos em uma igreja, simbolizando fé e cidadania cristã nas eleições
A Palavra de Deus ilumina também a nossa vida como cidadãos. Foto: Shane Hoving / Unsplash · Licença Unsplash.

A semana que antecede o segundo turno das eleições brasileiras, marcado para 25 de outubro (calendário divulgado pela Band), trouxe de volta uma pergunta que atravessa gabinetes pastorais, grupos de WhatsApp e mesas de almoço de domingo: igreja e política podem caminhar juntas? E, se podem, até onde vai a voz do pastor? A pergunta é antiga, mas nunca foi tão buscada. Quero responder a ela como pastor, e não como militante: com a Bíblia aberta, os pés no chão e o coração tranquilo, porque a nossa esperança não depende de urna nenhuma.

Um dado ajuda a respirar. Em pesquisa do Datafolha realizada em junho de 2024 com 613 evangélicos da capital paulista, 70% disseram ser contra o pastor indicar diretamente em quem votar. Ou seja: o povo na cadeira muitas vezes já entendeu algo que quem está no púlpito, às vezes, esquece. Vamos aos fundamentos.

1. O cristão é cidadão de dois reinos, e leva os dois a sério

O apóstolo Paulo escreveu aos cristãos de Roma, a capital do império, que “todos devem sujeitar-se às autoridades, pois toda autoridade vem de Deus” (Romanos 13:1, NVT). Repare no verbo grego: hypotassō (ὑποτάσσω). Ele é composto de hypo (“debaixo”) e tassō (“ordenar, dispor”), e significa “colocar-se em ordem sob alguém”. É diferente de peitharcheō (πειθαρχέω), o verbo que aparece em Atos 5:29, quando Pedro e os apóstolos declaram: “Devemos obedecer a Deus antes de qualquer autoridade humana” (NVT). Sujeição ordenada e respeitosa não é o mesmo que obediência cega. A mesma Bíblia que nos ensina a honrar as autoridades nos ensina que existe Alguém acima delas.

Já aos filipenses, que viviam numa colônia romana e se orgulhavam da cidadania de Roma, Paulo lembra: “Nossa cidadania, no entanto, vem do céu, e de lá aguardamos ansiosamente a volta do Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Filipenses 3:20, NVT). A palavra é politeuma (πολίτευμα), relacionada a polis, termo grego para cidade, de cuja família também vem a palavra “política”. Era a comunidade de cidadãos de uma pátria, mesmo vivendo longe dela. Eis a tensão sadia: somos de lá, mas moramos aqui. Por isso votamos, pagamos impostos, cobramos, oramos pelos governantes e trabalhamos pelo bem da cidade, sem esquecer qual é a nossa pátria definitiva.

“Não há um único centímetro quadrado, em todo o domínio da nossa existência humana, sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘Isto é meu!'” Abraham Kuyper, discurso inaugural da Universidade Livre de Amsterdã, 1880

A frase de Kuyper, teólogo e estadista holandês, costuma ser usada como argumento para que a igreja ocupe tudo. Leia com calma: ela diz que Cristo é Senhor de tudo, e não que o pastor é dono de tudo. Kuyper, aliás, defendia a “soberania das esferas”: a família, o Estado e a igreja têm cada um sua área própria de autoridade, e nenhuma deve engolir a outra.

2. O púlpito é lugar de pregar Cristo, e não de indicar candidato

Paulo resume a missão de quem ocupa o púlpito em 2 Coríntios 4:5: não pregamos a nós mesmos, e sim a Jesus Cristo como Senhor. O jornalista e teólogo Gustavo Gouvêa, em artigo recente, lembra o “Manifesto pela Democracia”, escrito em 2018 pelo pastor batista Jorge Rodrigues Neto, e defende que líderes cristãos são cidadãos e podem ter opinião política, mas não devem usar o púlpito para induzir o voto dos fiéis. A ideia central é que nenhum candidato é “o candidato de Deus”. Quando um pastor entrega esse selo a alguém, ele corre dois riscos graves: atar a consciência da ovelha onde a Bíblia deixou liberdade e empenhar o nome de Deus numa causa que pode falhar.

Nós, batistas, deveríamos entender isso melhor que ninguém. Nossa história nasceu da defesa da liberdade de consciência e da distinção entre igreja e Estado. Cada irmão e cada irmã responde diretamente a Deus pelo próprio voto. O pastor ensina princípios bíblicos (justiça, verdade, cuidado com o pobre, defesa da vida, honestidade no trato do dinheiro público), e a ovelha, com a Palavra e a oração, discerne como aplicá-los.

E há um motivo prático. Um rebanho politicamente dividido continua sendo um só corpo. Na mesma igreja sentam-se o servidor público e a empresária, a professora e o motorista de aplicativo, pessoas que chegaram a conclusões diferentes pensando no bem do país. Se o culto virar comício, perdemos a oportunidade de ser, para todos eles, a casa onde se encontra o perdão, a esperança e a comunhão. O púlpito é feito para derrubar fortalezas espirituais, e não para servir de palanque improvisado.

3. Cidadania cristã vai muito além do dia da eleição

Se o púlpito não é palanque, isso não significa que a igreja deve se esconder. Jeremias escreveu aos exilados na Babilônia que buscassem a paz e a prosperidade da cidade onde Deus os havia colocado e orassem por ela (Jeremias 29:7; leia o texto na NVT em Bíblia Online). Isso se faz o ano inteiro, e não só em outubro. Alguns caminhos práticos:

  1. Ore pelos governantes, por nome e por ofício, sejam eles quem forem (1 Timóteo 2:1-2).
  2. Informe-se bem: leia propostas, compare histórias, desconfie de boatos e de correntes de mensagem. Divulgar notícia falsa também é pecado contra o nono mandamento.
  3. Vote com consciência, sem agressividade, e respeite quem pensa diferente. Quem ama o irmão não o ofende por causa de uma sigla.
  4. Aceite o resultado legítimo das urnas e continue servindo. A esperança cristã não termina na apuração.
  5. Sirva à sua cidade: projetos sociais, ações com famílias em situação de vulnerabilidade, acompanhamento da vida pública local.

Conclusão: o Reino não está na urna, mas a nossa fidelidade passa por ela

Nenhum governo, de direita, de esquerda ou de centro, vai fazer o que só a volta de Cristo fará. Isso nos livra de duas armadilhas: o cinismo, que diz “político nenhum presta, não vou fazer nada”, e a idolatria, que diz “se o meu lado perder, tudo está perdido”. O Senhor reina, e o texto de Filipenses nos garante que de lá aguardamos o Salvador. Votar, portanto, é um ato de responsabilidade, mas não de salvação.

Então, querido irmão, querida irmã, este é o meu convite para estes dias. Ore antes de votar. Converse com respeito, mesmo com quem discorda. Fale de Jesus mais do que fala de candidatos. Depois do dia 25, abrace quem pensa diferente na porta da igreja e lembre-se de que ainda temos muito para fazer. Se confiamos em Deus, podemos ir às urnas em paz e voltar à missão com alegria. Ele nunca perdeu uma eleição, porque nunca precisou de uma. E que seja o amor de Cristo, e não a polarização, a nossa marca mais visível.

Quer continuar nesse caminho? Veja também outros textos sobre o cristão e as eleições: como votar com fé e paz.

Bibliografia e fontes

  • BÍBLIA. Nova Versão Transformadora (NVT). São Paulo: Mundo Cristão, 2016. Texto consultado em: Romanos 13; Filipenses 3; Atos 5.
  • KUYPER, Abraham. Calvinismo (Conferências Stone). São Paulo: Cultura Cristã, 2002. O discurso de 1880 sobre a soberania das esferas é a fonte da frase citada.
  • GOUVÊA, Gustavo. Pastores e política nas eleições 2026: o púlpito não é palanque. ES Hoje, 4 set. 2026. Disponível em: eshoje.com.br.
  • DATAFOLHA. Pesquisa com evangélicos da capital paulista (junho de 2024), divulgada em 21 jul. 2024. Disponível em: maisgoias.com.br.
  • BAND. Quando é o segundo turno das eleições 2026. Disponível em: band.com.br.
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