O Cristão e as Eleições 2026: Como Votar com Fé e Paz

Bíblia aberta iluminada pela luz colorida de um vitral, simbolizando a Palavra de Deus orientando o cristão nas eleições
A Palavra de Deus ilumina o caminho do cristão também na vida pública. Foto: Shane Hoving / Unsplash

Neste domingo, 4 de outubro, milhões de brasileiros vão às urnas. Para quem segue Jesus, a pergunta que ecoa nos grupos de mensagens, nas mesas de almoço e nos corredores das igrejas é uma só: como deve ser a postura do cristão e as eleições? Como votar sem trocar o Reino de Deus por um partido, e como conversar sem transformar irmãos em inimigos? Se você está cansado do barulho, respire fundo. Deus continua no trono, e isso muda o tom de tudo o que vem a seguir.

Um dado ajuda a começar com humildade. Segundo o sociólogo Alexandre Brasil, da UFRJ, o eleitorado evangélico está longe de ser um bloco único: em muitos casos, a filiação partidária pesa mais nas votações do que a origem religiosa. Ou seja, cristãos sinceros chegam a conclusões diferentes. Isso não é motivo de pânico, mas de maturidade.

1. Nossa cidadania principal está no céu

O apóstolo Paulo escreveu aos filipenses, moradores de uma colônia romana orgulhosa de seus direitos: “Nós, porém, somos cidadãos do céu, e aguardamos ansiosamente o Salvador, o Senhor Jesus Cristo, que voltará de lá” (Filipenses 3:20, NVT). A palavra grega traduzida por “cidadania” é politeuma, da mesma família de polis (cidade) e do nosso “política”. Paulo está dizendo que a nossa comunidade política de origem, a que define quem somos, é o Reino de Cristo.

Isso não nos afasta da cidade terrena; ao contrário, nos qualifica para servi-la melhor. Quem tem o céu como pátria principal não precisa esperar salvação de nenhum candidato, e por isso pode votar com liberdade, sem desespero e sem idolatria. O grande teólogo holandês Abraham Kuyper resumiu essa visão numa frase famosa:

“Não há um único centímetro quadrado, em todo o domínio da nossa existência humana, sobre o qual Cristo, que é Soberano sobre tudo, não clame: ‘Meu!’” Abraham Kuyper, discurso de inauguração da Universidade Livre de Amsterdã, 1880 (tradução livre).

Note o detalhe: quem reivindica cada centímetro é Cristo, e não um partido, um líder ou uma ideologia. Quando um candidato ocupa o lugar que só pertence ao Senhor, é hora de recuar um passo.

2. Buscar o shalom da cidade, mesmo no exílio

Os judeus levados à Babilônia receberam uma orientação surpreendente do Senhor por meio de Jeremias: “Procurem a paz e a prosperidade da cidade para onde eu os enviei. Orem ao Senhor em favor dela, pois, se ela prosperar, vocês também prosperarão” (Jeremias 29:7, NVT). No hebraico, a palavra é shalom, que vai muito além de ausência de guerra: significa inteireza, florescimento, vida em ordem e justiça para todos.

Repare no verbo: “procurem”. O povo de Deus não foi chamado a se esconder nem a dominar a Babilônia, mas a buscar o bem dela com oração e trabalho. Votar com consciência é uma forma concreta de buscar o shalom da nossa cidade. E orar pelas autoridades, como Paulo pediu a Timóteo (1Timóteo 2:1-2), vale para quem ganhou e para quem perdeu na sua preferência.

Três perguntas para levar à urna:
  • Este voto promove justiça, verdade e cuidado com os mais vulneráveis, valores que a Bíblia ensina do começo ao fim?
  • Estou avaliando o histórico e o caráter da pessoa, e não apenas o discurso ou a torcida do meu grupo?
  • Consigo respeitar quem votou diferente de mim como alguém por quem Cristo morreu?

3. O altar não é palanque, e o irmão não é adversário

Jesus foi claro diante da pergunta armada sobre impostos: “Deem a César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21, NVT). A igreja tem liberdade para ensinar princípios bíblicos de cidadania e incentivar a participação consciente, mas a legislação eleitoral é rigorosa quanto ao uso do culto para campanha. Um guia jurídico voltado a igrejas e pastores resume bem o espírito da coisa: o altar não é palco de campanha. Pastores devem evitar qualquer coerção espiritual e nunca prometer bênçãos divinas em troca de apoio político, preservando a liberdade de consciência de cada membro.

Há ainda um perigo mais sutil que o legal: o do coração. O teólogo e jornalista Gustavo Gouvêa lembra, em artigo publicado nesta semana, que a violência política começa quando deixamos de enxergar o adversário como próximo. A Bíblia nos protege desse caminho: “Todos devem ser prontos para ouvir, mas lentos para falar e lentos para se irar. A ira humana não produz a vida justa que Deus deseja” (Tiago 1:19-20, NVT). E Paulo completa: “Se possível, façam todo o possível para viver em paz com todos” (Romanos 12:18, NVT).

O grande pregador e teólogo John Stott insistia que o cristão não pode se refugiar na indiferença nem se render à estridência. Ele defendia que a fé cristã deve ser levada com seriedade à vida pública, mas sempre com o caráter do Mestre (veja a obra indicada na bibliografia). Em outras palavras: participação sim, hostilidade não. Sal e luz, jamais fogo amigo.

Aplicação prática e encorajamento

Nos próximos dias, você pode fazer cinco coisas simples e poderosas: orar pelo país antes de votar, informar-se em fontes variadas, votar com liberdade de consciência, tratar com mansidão quem pensa diferente e, passada a eleição, continuar servindo a sua cidade com as mãos e os joelhos. Se o seu candidato vencer, não transforme a vitória em triunfalismo. Se perder, não transforme a derrota em desespero. E, em qualquer cenário, lembre-se de um detalhe bem-humorado: Deus não depende de apuração de votos para governar o universo.

Os governos passam, as urnas se fecham, os resultados se anunciam, mas o Senhor continua reinando, e o seu Reino não tem fim. Vote com fé, ame com coragem e siga confiante: Aquele que nos chamou para ser sal e luz também nos dá sabedoria para cumprir a missão, hoje e nos anos que virão.

Quer continuar refletindo? Leia também outros artigos do site do Pastor Guilherme Gimenez sobre fé e vida prática.

Bibliografia e referências

  1. BÍBLIA. Nova Versão Transformadora (NVT). São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
  2. KUYPER, Abraham. Calvinismo. São Paulo: Cultura Cristã, 2014. (Ver também o discurso “Sphere Sovereignty”, Amsterdã, 1880.)
  3. STOTT, John. Os Desafios do Cristão Contemporâneo. Viçosa: Ultimato.
  4. BRASIL, Alexandre. “Os evangélicos nas eleições de 2026”. Le Monde Diplomatique Brasil, 21 ago. 2026. Disponível em: diplomatique.org.br.
  5. GOUVÊA, Gustavo. “Eleições 2026: ódio político x Evangelho de Cristo”. ES Hoje, 25 set. 2026. Disponível em: eshoje.com.br.
  6. DOUGLAS, William; BARROS, Francisco Dirceu; DURAND, Rafael. Guia de orientação a igrejas e candidatos nas eleições de 2026. Resumo em: comunhao.com.br, 5 ago. 2026.
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