Por que fazemos tantas coisas que Jesus não ensinou?
Há uma pergunta incômoda que a igreja precisa fazer com humildade: por que, em nome de Jesus, às vezes fazemos coisas que Jesus nunca ensinou? E mais: por que, em alguns casos, defendemos práticas, posturas e tradições que parecem contrariar diretamente o espírito do evangelho?
Essa pergunta não deve nascer de rebeldia contra a igreja, mas de fidelidade a Cristo. O problema não é a existência de tradições. Toda comunidade cria formas, hábitos, métodos e expressões culturais. O problema começa quando essas formas deixam de servir ao evangelho e passam a competir com ele. Jesus confrontou exatamente isso quando disse aos fariseus: “Por que vocês desobedecem ao mandamento de Deus por causa da tradição de vocês?” (Mt 15.3). A questão, portanto, não é se temos tradições, mas se elas estão submissas à autoridade de Cristo.
Uma das razões pelas quais fazemos tantas coisas que Jesus não ensinou é a nossa tendência de transformar meios em fins. A igreja recebeu de Cristo uma missão clara: fazer discípulos, batizar e ensinar a obedecer tudo o que ele ordenou (Mt 28.18-20). No entanto, ao longo do tempo, métodos, agendas, estruturas, preferências musicais, estilos de liderança e costumes locais podem se tornar mais importantes que a própria missão. O que nasceu como ferramenta passa a funcionar como identidade. O resultado é uma igreja que pode até estar ocupada, mas nem sempre está obediente.
Dietrich Bonhoeffer observou que o chamado de Jesus é um chamado ao discipulado concreto, não apenas à admiração religiosa. Para ele, “quando Cristo chama um homem, ele o chama para vir e morrer” (BONHOEFFER, 2016). A frase é forte porque nos lembra que seguir Jesus não é ajustar Cristo aos nossos interesses, mas submeter nossos interesses a Cristo. Muitas distorções nascem quando queremos um cristianismo sem cruz, uma fé sem renúncia e uma espiritualidade sem obediência.
Outra razão é o nosso apego ao poder. Jesus ensinou que a grandeza no Reino não se mede por domínio, mas por serviço: “quem quiser ser o primeiro entre vocês, que se torne servo de todos” (Mc 10.44). Mesmo assim, a história cristã mostra que líderes, igrejas e movimentos frequentemente confundiram autoridade espiritual com controle, influência com vaidade e zelo pela verdade com dureza sem amor. Quando isso acontece, podemos defender Jesus com atitudes que se parecem muito pouco com Jesus.
John Stott afirmou que a cruz é o centro da fé cristã porque nela vemos, ao mesmo tempo, a gravidade do pecado e a profundidade do amor de Deus (STOTT, 2006). Isso corrige duas tentações perigosas: a arrogância moral e a graça barata. A arrogância moral nos faz tratar pessoas como problemas a serem vencidos. A graça barata nos faz tratar o pecado como detalhe sem importância. Jesus não fez nem uma coisa nem outra. Ele acolheu pecadores, mas também chamou ao arrependimento; ofereceu graça, mas não negociou a verdade (Jo 8.11; Mc 1.15).
Também fazemos coisas que Jesus não ensinou porque temos facilidade para terceirizar a obediência. Preferimos discutir religião a praticar misericórdia. Preferimos defender doutrinas corretas a viver relacionamentos transformados. Preferimos falar sobre amor enquanto alimentamos rivalidades. Jesus, porém, ligou o amor dos discípulos à credibilidade do testemunho cristão: “Seu amor uns pelos outros provará ao mundo que são meus discípulos” (Jo 13.35). Isso significa que a ortodoxia sem amor pode até preservar fórmulas corretas, mas não reflete plenamente o caráter de Cristo.
C. S. Lewis advertiu que o orgulho é um dos pecados mais sutis e destrutivos, pois coloca o ser humano no centro, competindo com Deus e com o próximo (LEWIS, 2017). Isso ajuda a explicar por que podemos usar a religião para alimentar vaidade espiritual. É possível conhecer textos bíblicos e, ainda assim, usar esse conhecimento para diminuir pessoas. É possível defender a santidade e, ao mesmo tempo, agir sem compaixão. É possível falar em nome de Jesus e não demonstrar o coração de Jesus.
Há ainda um fator cultural. Muitas práticas que defendemos como se fossem mandamentos de Cristo são, na verdade, costumes de época, preferências pessoais ou marcas de determinada tradição eclesiástica. A fé cristã sempre se expressa dentro de culturas, mas nunca deve ser escravizada por elas. O apóstolo Paulo alertou: “Não imitem o comportamento e os costumes deste mundo, mas deixem que Deus os transforme por meio de uma mudança em seu modo de pensar” (Rm 12.2). A igreja precisa discernir continuamente o que é evangelho, o que é tradição legítima e o que é apenas apego cultural disfarçado de fidelidade.
Na perspectiva batista, esse discernimento passa pela autoridade das Escrituras. A tradição pode ajudar, a experiência pode ensinar, a cultura pode oferecer linguagem, mas a Palavra de Deus deve julgar todas as coisas. A Confissão de Fé Batista de Londres de 1689 afirma que a Escritura é a regra suficiente, certa e infalível de todo conhecimento salvador, fé e obediência (CONFISSÃO, 2019). Isso não significa desprezar a história da igreja, mas reconhecer que nenhuma prática cristã deve ocupar o lugar da obediência bíblica.
O caminho de volta não é abandonar a igreja, mas reformá-la continuamente à luz de Cristo. Precisamos perguntar com honestidade: isso que fazemos nos torna mais parecidos com Jesus? Isso ajuda pessoas a seguirem Cristo? Isso expressa amor, verdade, graça, santidade e missão? Ou apenas preserva nossas preferências?
Jesus não nos chamou para construir uma religião em torno de nossas manias. Ele nos chamou para segui-lo. E seguir Jesus exige coragem para manter o que é bíblico, corrigir o que foi distorcido e abandonar o que contradiz o evangelho.
No fim, a pergunta mais importante não é: “Sempre fizemos assim?”. A pergunta é: “Jesus nos ensinou a viver assim?”. Porque a igreja não pertence às nossas tradições, aos nossos gostos ou aos nossos sistemas. A igreja pertence a Cristo. E onde Cristo é Senhor, até as nossas práticas mais antigas precisam se ajoelhar diante da sua Palavra.
A pergunta mais importante não é: “Sempre fizemos assim?”. A pergunta é: “Jesus nos ensinou a viver assim?”.
Guilherme Gimenez
Pastor Sênior da PIBFLORIPA
Referências
- BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Tradução em linguagem contemporânea. Referências utilizadas: Mateus 15.3; Mateus 28.18-20; Marcos 1.15; Marcos 10.44; João 8.11; João 13.35; Romanos 12.2.
- BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado. São Paulo: Mundo Cristão, 2016.
- CONFISSÃO de Fé Batista de Londres de 1689. São José dos Campos: Fiel, 2019.
- LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
- STOTT, John. A cruz de Cristo. São Paulo: Vida, 2006.
- WRIGHT, N. T. Simplesmente Jesus: uma nova visão de quem ele foi, do que fez e por que importa. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.